- Olá! Quem sou?
- Não sei dizer ainda.
- O que dizem sobre mim?
- Definem como rebelde, louco, perdido, desertor... herege.
- Tudo isso?
- Sim.
- A liberdade é uma rebeldia de quem decide quebrar as regras. A liberdade é loucura quando ser normal é obeceder o sistema. Estar perdido o torna livre para escolher um novo caminho. Desertar às vezes é o único modo de se curar e herege é aquele que abandona suas crenças, não aquele que decidiu enxergá-las de um ponto de vista diferente.
Pois ele não quis entender dessa forma e, ao lançar mãos das pedras do tribunal - abandonadas pelos que eram dignos de tocá-las - conseguiu levar para mais longe, aqueles que tentavam voltar.
Os gritos e ofensas que ecoam nos vales infinitos da alma o fizeram de herói a vilão, de bem feitor a carrasco. E como aquele que despreza os seus, ele conseguiu macular o interior de todos os que estavam ao seu redor. Das águas negras que bebi eu me lembro da fonte - fonte que andava nas noites e nos dias e jorrava, como o rebentar de uma represa, imprecações, insultos e infâmia a todos imperfeitos que o cercavam.
- Quem lhe trouxe aqui?
- Você!
- Não imaginava que fossem tantos...
- Sim. Todos aqueles que lhe ajudaram. Todos aqueles em quem você plantou a semente da decepção e da ingratidão.
E foi assim, tratando das feridas que suas palavras criaram, que eu decidi nunca me tornar igual você. Foi assim que eu vi o prato da vingança passar por mim e não ter coragem de tocá-lo. Foi negando tocar o banquete do rancor que aprendi a esperar o tempo retribuir as sementes plantadas no caminho.
Eu vi os degraus da soberba que você pisou. Eu vi a escadaria de sangue que lhe fez subir e me arrependi de um dia ter lhe conhecido. Mas os degraus do engano levam para frente quem neles desce e afunda quem por eles sobe.
Sua subida o trouxe até aqui. E é aqui onde eu verei, sentado na platéia, qual é a cor das pedras do Tribunal.